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Museu expõe O Falatório, de Stella do Patrocínio, a partir de hoje

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O Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro, inaugura neste sábado (22), às 14h, a mostra Stella do Patrocínio – Me mostrar que eu não sou sozinha. Que tem outras iguais, semelhantes a mim e diferentes. A exposição, inédita, apresenta O Falatório, de Stella do Patrocínio, nascida no Rio de Janeiro em 1941. Empregada doméstica, negra, assim como sucedeu com Arthur Bispo do Rosário, Stella foi conduzida arbitrariamente pela polícia e internada no Centro Psiquiátrico Pedro II, aos 21 anos de idade. Em 1966, foi transferida para a Colônia Juliano Moreira, onde permaneceu até a sua morte, aos 51 anos.

Ao contrário de outros internos da colônia, que traduziam sua arte em pinturas e esculturas na grande maioria, Stella do Patrocínio tinha uma produção em prosa e poesia, que depois foi registrada em gravações. “Ela tinha toda uma produção que foi depois registrada e chamada pela própria Stella de O Falatório. Ela tinha um jeito próprio de expressar a revolta do manicômio, a relação com a sociedade. E ela pôde expressar isso falando”, disse à Agência Brasil a diretora do Museu, Raquel Fernandes.

A série Retratos Relatos, de Panmela Castro, na exposição Stella do Patrocínio, no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea. A série Retratos Relatos, de Panmela Castro, na exposição Stella do Patrocínio, no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea.

A série Retratos Relatos, de Panmela Castro, na exposição Stella do Patrocínio, no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea – Fernando Frazão/Agência Brasil

O Falatório é composto por um conjunto de conversas com Carla Guagliardi, gravadas em fita cassete, que fizeram parte, em 1986, do movimento de humanização das práticas em ambientes psiquiátricos, realizado na Colônia Juliano Moreira.

Nesse contexto foi criado o projeto Oficina de Livre Criação Artística, em parceria com a Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV), idealizado pelas psicólogas Denise Correa e Marlene Sá Freire, com a orientação da artista Nelly Gutmacher e participação de estudantes da EAV.

O projeto promoveu oficinas de arte para internas do extinto Núcleo Teixeira Brandão, e formou um grupo feminino de interação com as mulheres internadas, entre as quais se encontrava Stella. “Ela era sempre altiva e se colocava de uma forma muito interessante, diferente das demais internas”, disse Raquel.

Vivências propostas pela artista Rosana Palazyan para mulheres afetadas pela violência de Estado na exposição Stella do Patrocínio, no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea. Vivências propostas pela artista Rosana Palazyan para mulheres afetadas pela violência de Estado na exposição Stella do Patrocínio, no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea.

Vivências propostas pela artista Rosana Palazyan para mulheres afetadas pela violência de Estado – Fernando Frazão/Agência Brasil

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O grupo do Parque Lage gravou as falas de Stella, que acabaram fazendo parte de uma exposição no Paço Imperial, nos anos de 1990, onde se viam recortadas as frases desse Falatório que Stella colocava.

Depois, em 2001, após a morte de Stella, suas falas viraram um livro, organizado pela filósofa Viviane Mosé. Desde então, o Falatório de Stella do Patrocínio tornou-se publicamente conhecido, inspirando diversas produções artísticas e pesquisas acadêmicas.

“Com isso, Stella acabou sendo apresentada como uma potência da poesia falada. Daí, ela começa a ser reconhecida. As pessoas começam a estudar Stella, os áudios começam a circular, a partir do recorte do livro, e ela passa a ser objeto de interesse para pesquisas de mestrado e doutorado”, disse a diretora do museu.

Exposição

Exposição Stella do Patrocínio, no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, na Colônia Juliano Moreira, Taquara. Exposição Stella do Patrocínio, no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, na Colônia Juliano Moreira, Taquara.

Exposição Stella do Patrocínio, no Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, na Colônia Juliano Moreira – Fernando Frazão/Agência Brasil

Na exposição, o Falatório de Stella é apresentado na íntegra. “É uma exposição que convoca as pessoas a escutar o Falatório sem nenhum recorte, como ela de fato apresentou, e fazendo com que as pessoas possam ser atravessadas por esse Falatório. Foi isso que a gente propôs também para as artistas que fazem parte da exposição”, disse Raquel.

“A partir daí, surgiram trabalhos que são inspirados nesse Falatório, que ressalta a condição da mulher negra, o seu papel de fala, a violência sofrida em relação a isso e, como não há uma reparação possível, como proceder diante disso e, de alguma maneira, não silenciar”, comentou Raquel Fernandes.

“Essa é a provocação que a gente trouxe para as artistas”, acrescenta Raquel.

O projeto coloca em foco a palavra falada, escrita, desenhada, costurada, bordada, dançada, performada, cantada, mobilizada pela escuta do Falatório de Stella do Patrocínio, afirmando sua relevância na produção intelectual e artística brasileira e afrodiaspórica.

A mostra reúne trabalhos das artistas Annaline Curado, Morena, Natasha Felix, Panmela Castro, Patricia Ruth, Priscila Rezende, Rogéria Barbosa, Val Souza, Vanessa Alves, Zahy e Rosana Palazyan junto à Ana Letícia Silva de Souza, Mac Laine Faria, Cláudia Coura, Luzia Cavalcanti e Fatinha da Rocinha.

A exposição também conta com a participação do Núcleo de Atenção Psicossocial a Afetados pela Violência de Estado (Napave). A curadoria coletiva é de Patrícia Ruth, Rogéria Barbosa, Diana Kolker, Raquel Fernandes e Ricardo Resende.

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Racismo

Entrada da Colônia Juliano Moreira, na Taquara, onde fica o Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea. Entrada da Colônia Juliano Moreira, na Taquara, onde fica o Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea.

Entrada da Colônia Juliano Moreira, onde fica o Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea – Fernando Frazão/Agência Brasil

O racismo é outro aspecto muito presente em artistas como Stella do Patrocínio, que eram internadas arbitrariamente em manicômios, no século passado. A diretora do Museu Bispo do Rosário disse que um grande contingente de mulheres era internado pelas famílias nos manicômios. Eram mulheres que se rebelavam contra os pais, maridos ou companheiros, que tinham uma postura mais questionadora ou não aceitavam a violência imposta às mulheres. “Essas eram taxadas como loucas, histéricas, psicóticas. Um grande quantitativo acabou ficando aqui”, disse Raquel Fernandes.

A diretora do museu salientou ainda que ao contrário dos homens internados, que eram mais visitados pelas famílias, muito poucas mulheres recebiam visitas. “Ficavam abandonadas por serem consideradas improdutivas, à margem. Havia também muito de racismo, porque um grande contingente de mulheres internadas como loucas era negra, pobre. Acabavam vindo para cá e silenciadas”.

A diretora Raquel Fernandes lembra que a exposição está sendo realizada no mesmo ano em que o Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira encerra os últimos núcleos ativos de internação, por meio da implementação de políticas de cuidado e reinserção psicossocial.

“Nosso projeto marca e reafirma a luta por uma sociedade sem manicômios, e soma forças às ações de justiça e reparação às vítimas da violência do Estado que atinge, principalmente, mulheres historicamente afetadas pelo racismo. A exposição é um convite à escuta”, disse.

O Museu Bispo do Rosário promove também neste sábado o lançamento do livro Uma trajetória, uma vida, uma escolha, produzido por Rogéria Barbosa, usuária também do serviço mental. A artista integra o Atelier Gaia, apoiado pelo museu, é militante da luta antimanicomial e uma das curadoras da exposição.

O Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea fica na Estrada Rodrigues Caldas, 3.400, Taquara, em Jacarepaguá.

Os agendamentos de visitas podem ser feitos no endereço virtual do museu.

A mostra gratuita ficará aberta ao público até 24 de abril de 2023, no horário das 10h às 17h, diariamente, exceto segunda-feira.

Edição: Fernando Fraga

Fonte: EBC Geral

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Prefeitura de SP constrói muro na Cracolândia para isolar área de usuários de drogas

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A Prefeitura de São Paulo ergueu um muro na Cracolândia, localizada no Centro da cidade, com cerca de 40 metros de extensão e 2,5 metros de altura, delimitando a área onde usuários de drogas se concentram. A estrutura foi construída na Rua General Couto Magalhães, próxima à Estação da Luz, complementada por gradis que cercam o entorno, formando um perímetro delimitado na Rua dos Protestantes, que se estende até a Rua dos Gusmões.

Segundo a administração municipal, o objetivo é garantir mais segurança às equipes de saúde e assistência social, melhorar o trânsito de veículos na região e aprimorar o atendimento aos usuários. Dados da Prefeitura indicam que, entre janeiro e dezembro de 2024, houve uma redução média de 73,14% no número de pessoas na área.

Críticas e denúncias

No entanto, a medida enfrenta críticas. Roberta Costa, representante do coletivo Craco Resiste, classifica a iniciativa como uma tentativa de “esconder” a Cracolândia dos olhos da cidade, comparando o local a um “campo de concentração”. Ela aponta que o muro limita a mobilidade dos usuários e dificulta a atuação de movimentos sociais que tentam oferecer apoio.

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“O muro não só encarcerou os usuários, mas também impediu iniciativas humanitárias. No Natal, por exemplo, fomos barrados ao tentar distribuir alimentos e arte”, afirma Roberta.

A ativista também denuncia a revista compulsória para entrada no espaço e relata o uso de spray de pimenta por agentes de segurança para manter as pessoas dentro do perímetro.

Impacto na cidade

Embora a concentração de pessoas na Cracolândia tenha diminuído, o número total de dependentes químicos não foi reduzido, como destaca Quirino Cordeiro, diretor do Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas. Ele afirma que, em outras regiões, como a Avenida Jornalista Roberto Marinho (Zona Sul) e a Rua Doutor Avelino Chaves (Zona Oeste), surgiram novas aglomerações.

Custos e processo de construção

O muro foi construído pela empresa Kagimasua Construções Ltda., contratada após processo licitatório em fevereiro de 2024. A obra teve custo total de R$ 95 mil, incluindo demolição de estruturas existentes, remoção de entulho e construção da nova estrutura. A Prefeitura argumenta que o contrato seguiu todas as normas legais.

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Notas da Prefeitura

Em nota, a administração municipal justificou a construção do muro como substituição de um antigo tapume, visando à segurança de moradores, trabalhadores e transeuntes. Além disso, ressaltou os esforços para oferecer encaminhamentos e atendimentos sociais na área.

A Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU) reforçou que a Guarda Civil Metropolitana (GCM) atua na área com patrulhamento preventivo e apoio às equipes de saúde e assistência, investigando denúncias de condutas inadequadas.

A questão da Cracolândia permanece um desafio histórico para São Paulo, com soluções que, muitas vezes, dividem opiniões entre autoridades, moradores e ativistas.

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