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Quando o crédito vira sobrevivência

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Nos últimos anos, um fenômeno silencioso vem redesenhando o cenário econômico do país: o avanço do endividamento entre os brasileiros de classe média. Tradicionalmente vista como o motor do consumo e um dos pilares da estabilidade econômica, essa parcela da população enfrenta hoje uma realidade cada vez mais desafiadora.

Dados recentes de instituições como a Confederação Nacional do Comércio (CNC) revelam que o nível de endividamento das famílias brasileiras permanece elevado. Mais do que números, esses indicadores refletem uma mudança estrutural no padrão de vida e na capacidade de planejamento financeiro de milhões de brasileiros.

O que chama atenção é que o endividamento já não se concentra apenas nas camadas de renda mais baixa. A classe média, historicamente associada à estabilidade e à capacidade de poupança, passou a recorrer com maior frequência ao crédito para manter padrões de consumo e, em muitos casos, até mesmo para cobrir despesas essenciais.

O cartão de crédito tornou-se um dos principais instrumentos dessa dinâmica. De ferramenta de conveniência, passou a representar, para muitas famílias, uma espécie de extensão da renda mensal. O problema é que, em um ambiente de juros elevados, essa estratégia rapidamente se transforma em um ciclo difícil de romper.

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Outro fator relevante é o aumento do custo de vida. Despesas com educação, saúde, moradia e alimentação passaram a comprometer uma parcela cada vez maior do orçamento familiar. Ao mesmo tempo, o crescimento da renda não acompanhou essa elevação de custos, comprimindo a capacidade de poupança e ampliando a dependência do crédito.

Esse cenário gera impactos que vão além da esfera individual. Quando a classe média reduz consumo ou passa a direcionar uma parte significativa da renda para o pagamento de dívidas, toda a economia sente os efeitos. O comércio desacelera, investimentos são postergados e o dinamismo econômico diminui.

Isso não significa, necessariamente, o desaparecimento da classe média brasileira, como alguns discursos mais alarmistas sugerem. Mas é inegável que ela passa por um processo de transformação, marcado por maior vulnerabilidade financeira e por um cenário econômico mais complexo.

Diante desse contexto, torna-se essencial ampliar o debate sobre educação financeira, políticas de crédito responsáveis e estratégias que fortaleçam o poder de compra das famílias. Afinal, a saúde econômica da classe média é, em grande medida, um reflexo da própria saúde econômica do país.

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Se quisermos construir um ambiente de crescimento sustentável, será fundamental olhar com mais atenção para esse grupo que, por décadas, sustentou grande parte do dinamismo econômico brasileiro.

Euclides Ribeiro é advogado especialista em recuperação judicial no agronegócio e pré-candidato ao Senado por Mato Grosso

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Mato Grosso no topo das recuperações judiciais: alerta vermelho para o crédito no agro

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O crescimento exponencial dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro tem sido frequentemente tratado como sinal de amadurecimento institucional. A narrativa é sedutora e, como toda boa narrativa, perigosa. Porque, por trás do discurso de “profissionalização”, há um dado incômodo: o sistema está sendo tensionado além do razoável.

Em 2025, o Brasil registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial no setor. Mato Grosso lidera o ranking, com 332 requerimentos, seguido por Goiás (296), Paraná (248) e Mato Grosso do Sul (216). Em 2024, já haviam sido 1.272 solicitações. A curva não é de estabilização; é de escalada.

Convém, portanto, abandonar o romantismo. Recuperação judicial não é termômetro de virtude empresarial. É, antes, um mecanismo de exceção — concebido para momentos extraordinários, que vem sendo paulatinamente normalizado. E quando o excepcional vira rotina, o sistema deixa de funcionar como remédio e passa a operar como dependência.

A ideia de que o aumento das recuperações reflete maior consciência jurídica ou acesso a instrumentos legais merece, no mínimo, uma ressalva. Também pode refletir, e com frequência reflete, um ambiente de incentivo distorcido, no qual a reestruturação judicial se converte em estratégia ordinária de gestão de passivos. Em termos menos elegantes: o risco passa a ser socializado, enquanto o custo é transferido, silenciosamente, ao mercado de crédito.

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E o mercado reage. Como sempre reage.

Mais recuperações judiciais significam maior percepção de risco sistêmico. Maior risco implica crédito mais caro, mais escasso e mais seletivo. O efeito, embora difuso, é inescapável: o bom pagador subsidia o mau; o prudente paga a conta do imprudente; e o custo do capital sobe para todos, inclusive para quem jamais cogitou recorrer ao Judiciário.

Mato Grosso, líder absoluto do agro nacional, deveria acender o sinal de alerta. Não se trata de negar a importância da recuperação judicial enquanto instrumento legítimo, ela o é, e em muitos casos cumpre função relevante. Mas sua banalização corrói exatamente aquilo que pretende preservar: a confiança.

Sem confiança, não há crédito. Sem crédito, não há expansão. E sem expansão, o discurso de potência agrícola começa a soar mais como retórica do que como realidade.

É preciso, portanto, recolocar a recuperação judicial em seu devido lugar: um mecanismo de última ratio, e não uma etapa previsível do ciclo produtivo. Caso contrário, estaremos institucionalizando uma espécie de “planejamento financeiro por insolvência”, uma jabuticaba jurídica que, como tantas outras, pode até parecer engenhosa, mas cobra seu preço.

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E o preço, neste caso, já começou a chegar.

Felipe Iglesias é advogado, especialista em Direito Empresarial e lidera o Iglesias Advogados, com atuação destacada em crédito e reestruturação no agronegócio

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