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Mato Grosso no topo das recuperações judiciais: alerta vermelho para o crédito no agro

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O crescimento exponencial dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro tem sido frequentemente tratado como sinal de amadurecimento institucional. A narrativa é sedutora e, como toda boa narrativa, perigosa. Porque, por trás do discurso de “profissionalização”, há um dado incômodo: o sistema está sendo tensionado além do razoável.

Em 2025, o Brasil registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial no setor. Mato Grosso lidera o ranking, com 332 requerimentos, seguido por Goiás (296), Paraná (248) e Mato Grosso do Sul (216). Em 2024, já haviam sido 1.272 solicitações. A curva não é de estabilização; é de escalada.

Convém, portanto, abandonar o romantismo. Recuperação judicial não é termômetro de virtude empresarial. É, antes, um mecanismo de exceção — concebido para momentos extraordinários, que vem sendo paulatinamente normalizado. E quando o excepcional vira rotina, o sistema deixa de funcionar como remédio e passa a operar como dependência.

A ideia de que o aumento das recuperações reflete maior consciência jurídica ou acesso a instrumentos legais merece, no mínimo, uma ressalva. Também pode refletir, e com frequência reflete, um ambiente de incentivo distorcido, no qual a reestruturação judicial se converte em estratégia ordinária de gestão de passivos. Em termos menos elegantes: o risco passa a ser socializado, enquanto o custo é transferido, silenciosamente, ao mercado de crédito.

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E o mercado reage. Como sempre reage.

Mais recuperações judiciais significam maior percepção de risco sistêmico. Maior risco implica crédito mais caro, mais escasso e mais seletivo. O efeito, embora difuso, é inescapável: o bom pagador subsidia o mau; o prudente paga a conta do imprudente; e o custo do capital sobe para todos, inclusive para quem jamais cogitou recorrer ao Judiciário.

Mato Grosso, líder absoluto do agro nacional, deveria acender o sinal de alerta. Não se trata de negar a importância da recuperação judicial enquanto instrumento legítimo, ela o é, e em muitos casos cumpre função relevante. Mas sua banalização corrói exatamente aquilo que pretende preservar: a confiança.

Sem confiança, não há crédito. Sem crédito, não há expansão. E sem expansão, o discurso de potência agrícola começa a soar mais como retórica do que como realidade.

É preciso, portanto, recolocar a recuperação judicial em seu devido lugar: um mecanismo de última ratio, e não uma etapa previsível do ciclo produtivo. Caso contrário, estaremos institucionalizando uma espécie de “planejamento financeiro por insolvência”, uma jabuticaba jurídica que, como tantas outras, pode até parecer engenhosa, mas cobra seu preço.

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E o preço, neste caso, já começou a chegar.

Felipe Iglesias é advogado, especialista em Direito Empresarial e lidera o Iglesias Advogados, com atuação destacada em crédito e reestruturação no agronegócio

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Na política, nem toda crise destrói: como Flávio Bolsonaro pode usar o episódio a seu favor

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Na política, crises internas costumam ser vistas como ameaças. Mas, do ponto de vista da comunicação estratégica, nem todo conflito representa uma perda. Em determinados momentos, uma situação de tensão pode se transformar em uma oportunidade de reposicionamento, fortalecimento de imagem e aproximação com segmentos específicos do eleitorado.

O episódio envolvendo Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro mostra exatamente esse dilema. Para analistas de comunicação, a pergunta central não é apenas quem ganhou ou perdeu no confronto, mas como cada personagem consegue transformar a repercussão em narrativa política.

Para Flávio Bolsonaro, o episódio carrega riscos evidentes. Uma disputa pública dentro do próprio campo político pode transmitir sensação de divisão, gerar desconforto entre aliados e abrir espaço para adversários explorarem a ideia de falta de unidade dentro do grupo bolsonarista.

Por outro lado, a crise também pode oferecer ao senador uma oportunidade de comunicação. Em política, exposição é um elemento fundamental. Um nome que está sendo debatido, analisado e comentado permanece no centro da atenção pública. E atenção, principalmente em períodos de pré-campanha, é um dos principais recursos para qualquer político.

O ponto positivo para Flávio está justamente na possibilidade de construir uma imagem própria. Durante anos, sua trajetória política esteve diretamente associada ao sobrenome Bolsonaro e à figura do pai, Jair Bolsonaro. Um episódio de confronto interno pode permitir que ele mostre personalidade, capacidade de reação e autonomia diante de situações difíceis.

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Do ponto de vista da assessoria de imprensa, o desafio é transformar uma crise de relacionamento em uma narrativa de liderança. A comunicação precisa evitar que o episódio seja interpretado apenas como uma briga familiar ou uma disputa de espaço, e trabalhar uma mensagem que apresente Flávio como alguém preparado para enfrentar pressões, tomar decisões e manter foco em objetivos maiores.

A fala usada por ele, ao defender que “o que importa é o jogo do Brasil”, por exemplo, pode ser explorada estrategicamente como uma tentativa de demonstrar foco em um projeto político mais amplo, deixando de lado questões pessoais. A narrativa possível seria a de um político que prefere olhar para o futuro e para uma missão coletiva, em vez de permanecer preso a conflitos internos.

Mas esse movimento exige cuidado. Na comunicação política, não basta responder ao fato; é necessário controlar o significado do fato. Se a opinião pública enxergar apenas uma disputa dentro da família Bolsonaro, o desgaste pode crescer. Porém, se a equipe de comunicação conseguir reposicionar o episódio como uma demonstração de maturidade, equilíbrio e independência, o impacto pode ser diferente.

Outro ponto importante é o comportamento do eleitor. Grupos políticos não são formados apenas por argumentos racionais. Existe identificação emocional, vínculo e percepção de autenticidade. Para uma parcela do eleitorado, uma reação firme pode ser interpretada como coragem e posicionamento, enquanto para outros pode representar divisão.

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É justamente por isso que crises políticas precisam ser analisadas além da superfície. O episódio não é apenas sobre uma troca de declarações; é uma disputa por narrativa.

Para a assessoria de Flávio Bolsonaro, a estratégia mais inteligente seria evitar prolongar o conflito, reduzir o tom pessoal e direcionar a comunicação para temas que reforcem competência, preparo e capacidade de liderança. A política costuma punir quem parece preso ao passado, mas recompensa quem consegue apresentar uma visão de futuro.

O momento pode servir para Flávio consolidar uma imagem menos dependente da estrutura familiar e mais associada ao próprio posicionamento político. Em vez de tentar apagar a crise, a comunicação pode trabalhar para mostrar como ele reage diante dela.

A grande lição para profissionais de assessoria de imprensa é que nenhuma crise existe apenas pelo fato ocorrido. Ela existe pela interpretação que o público faz daquele acontecimento.

No ambiente político, quem controla a narrativa depois da crise muitas vezes consegue transformar um problema em oportunidade. E, nesse caso, o maior desafio de Flávio Bolsonaro não é vencer o embate público com Michelle, mas definir qual imagem ele quer deixar após esse episódio: a de alguém envolvido em uma disputa interna ou a de um político capaz de atravessar conflitos e seguir construindo seu próprio caminho.

Ana Barros, jornalista, com atuação em assessoria de imprensa e criadora da Coluna Pauta comentada

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