MATO GROSSO
“A emoção é a mesma que a de um atleta quando ganha um campeonato”, descreve reeducando após aprender ler e escrever
MATO GROSSO
Prestes a cumprir sua pena no sistema penitenciário e sair em liberdade, J.P.J., agora comemora outra conquista que obteve aos 27 anos de idade: aprender a ler e escrever. O resultado foi conquistado após participar do programa Mais MT Muxirum, realizado pelo Governo de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), e que visa erradicar o analfabetismo até 2025.
Além dele, outros 13 reeducandos que participaram do programa entre setembro de 2021 e janeiro de 2022, no Complexo Penitenciário Ahmenon Lemos Dantas, em Várzea Grande, receberam nesta quinta-feira (17.03) o certificado de conclusão. Segundo ele, apesar de parecer clichê nunca é tarde para recomeçar a vida e não será mais tachado como uma pessoa analfabeta.
“Desde criança eu não sabia ler e escrever, mas sempre tive o interesse de saber o que estava sendo contado nas histórias dos livros, na bíblia, jornal. Quando surgiu a oportunidade aqui, me inscrevi, e graças a esse programa hoje sei ler e cada vez aprendo mais. Foi com muito esforço e muita ajuda – agora não podem mais falar que sou analfabeto”, disse.
O processo de aprendizagem foi iniciado com as letras do alfabeto e soletração, que ele descreve ter tido algumas dificuldades iniciais, mas que foi só emoção ao conseguir ler a página inteira de um livro.
“Foi bastante emocionante, me senti como um atleta quando ganha uma olimpíada, um campeonato. Conseguir ler e entender tudo o que está escrito é muito gratificante. Fui pegando uma paixão pela leitura – hoje ajudo outros colegas e incentivo para que aprendam também. Quando sair [da reclusão], sonho em estudar e fazer uma faculdade”, relatou.
A busca ativa dos alunos foi iniciada na unidade em agosto do ano passado e durante o programa foi disponibilizada a alfabetização inicial com noções básicas em língua portuguesa e matemática.
“A realização do programa nos centros de ressocialização proporciona aprendizado e remição da pena. Para 2022, pretendemos ampliar a oferta para outras unidades no Estado”, reforçou Manoel Silveira, responsável pelo Mais MT Muxirum na Seduc.
Esta é a primeira turma formada e as aulas são ministradas por dois professores reeducandos, que recebem uma bolsa mensal de R$600, com recursos do programa Mais MT.
“É gratificante ver a vontade dos alunos em aprender, se dedicar e confiar que vai dar tudo certo. Ao olhar nos olhos deles, vemos a felicidade pela conquista e, para nós, como professores, é sempre um presente”, contou A.M, 60, um dos professores do programa e reeducando.
O Complexo Penitenciário Ahmenon Lemos Dantas foi inaugurado pelo Governo do Estado em 2020 e atende atualmente 110 reeducandos que estão em fase e conclusão da pena e considerados de baixa periculosidade. A capacidade é para comportar até 1.008 presos.
“A implantação deste projeto é muito positiva. Desde o início acreditamos muito no potencial deles e histórias como a do J.P.J, nos motivam a continuar. Eles vão conhecer um novo mundo, pois sabemos que muitas vezes estas pessoas não tiveram a oportunidade de educação”, afirmou o diretor do complexo, Alex Rondon.
Mais MT Muxirum
Iniciado em 2017 com 4.727 inscritos, o Programa Mais MT Muxirum foi retomado pelo Governo de Mato Grosso em 2021 e alfabetizou mais de 10 mil pessoas. O programa atende adultos e jovens a partir dos 15 anos, tanto da zona urbana como da zona rural os ensinando a ler e escrever.
O Mais MT Muxirum é desenvolvido por meio do regime de colaboração entre o Governo do Estado e município, com atendimento flexibilizado quanto ao local – pode ocorrer em centros comunitários, igrejas, escolas – e com turma reduzida, de 10 a 15 alunos no máximo. O governo executa o apoio técnico e pedagógico, realizando a formação de profissionais, avaliações externas, premiação de escolas e acompanhamento das ações.
As aulas terão início no dia 4 de abril em 92 municípios do Estado, com a expectativa de atender cerca de 30 mil pessoas em 2022. O investimento é de R$ 14,7 milhões ao ano.
“A educação no nosso estado vem sendo pensada e ampliada para atender a todos os públicos. Nossa tarefa é ir atrás dos estudantes que, por algum motivo, desistiram de estudar ou que não tiveram a oportunidade de frequentar a escola na idade certa. Ver histórias como essa nos motivam a continuar investindo e acreditando que estamos no caminho certo, ressaltou o secretário de Educação, Alan Porto.
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Credores rejeitam plano e recuperação do Grupo Pelissari entra em fase decisiva
A recuperação judicial do Grupo Pelissari entrou em um momento decisivo após os credores rejeitarem o plano apresentado pela empresa. A decisão foi tomada durante Assembleia Geral de Credores (AGC) realizada em 2025 e representa uma mudança significativa no rumo do processo, que tramita na 4ª Vara Cível de Sinop.
Durante a assembleia, pedidos de nova suspensão não foram aceitos pela Administração Judicial, que considerou o histórico de prorrogações anteriores sem avanços concretos. Com a rejeição do plano, a recuperação avança para uma etapa menos comum: a possibilidade de os próprios credores apresentarem uma proposta alternativa de reestruturação.
Essa possibilidade, prevista na Lei de Recuperação e Falências, muda o centro das negociações. Sem um plano aprovado, o processo entra em uma fase crítica, na qual o grupo devedor precisa demonstrar viabilidade econômica e recuperar a confiança dos credores. Caso contrário, cresce o risco de a recuperação ser convertida em falência.
Diante desse cenário, a AGC autorizou a abertura de prazo para apresentação de um plano alternativo. Entre os principais credores envolvidos estão a Blackpartners Fundo de Investimento e as empresas Terra Forte, Maré Fertilizantes e Vicente Agro, que protocolaram conjuntamente uma nova proposta de reorganização.
Segundo os documentos apresentados ao juízo, o plano alternativo busca enfrentar problemas apontados pelos credores, como a falta de informações claras e previsibilidade financeira. A proposta prevê critérios objetivos de cumprimento, maior transparência sobre o desempenho operacional e mecanismos de fiscalização, pontos considerados essenciais em operações ligadas ao agronegócio, setor marcado por forte sazonalidade.
Além do novo plano, os credores também solicitaram acesso ampliado a informações da empresa, com pedidos de medidas de apuração, incluindo requerimentos relacionados à quebra de sigilos e ao uso de ferramentas de rastreamento de dados. A análise dessas medidas ainda depende de decisão judicial, mas tende a aumentar o nível de controle e escrutínio sobre a operação do grupo.
Para o advogado Felipe Iglesias, o uso desse instrumento mostra a gravidade do momento vivido pela empresa. “A apresentação de um plano alternativo por credores é prevista em lei, mas não é comum na prática. Quando acontece, geralmente indica que os credores não enxergam, naquele momento, uma proposta do devedor capaz de equilibrar viabilidade econômica e execução efetiva. Se o plano alternativo também for rejeitado, o risco de falência se torna concreto”, afirma.
Para o mercado, o episódio sinaliza que a recuperação judicial do Grupo Pelissari entra em uma fase em que governança, transparência e consistência das informações passam a ser tão importantes quanto o cronograma de pagamentos. O processo segue agora para um ponto decisivo: ou a reestruturação será redesenhada sob liderança dos credores, ou haverá uma tentativa de recomposição de consensos para evitar um desfecho mais severo.
Em recuperações judiciais, o fator tempo costuma pesar contra empresas com baixa previsibilidade. Uma nova assembleia geral destinada à aprovação do plano de credores deverá ocorrer ainda no primeiro semestre de 2026. Caso o plano seja rejeitado, será decretada a falência.